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#20 Atuação do Personal Trainer com Pacientes Oncológicos | Com Prof. Henrique Stelzer Nogueira

Atualizado: 29 de abr. de 2021



Leonardo Farah: Boa noite pessoal, tudo bem? Sejam todos bem-vindos a mais um personal empreendedor. Antes de mais nada, vamos para aquele velho mantra que é: Se inscreva no canal, deixe o seu joinha, ative o sininho para receber as nossas notificações sempre que a gente estiver no ar. E também a gente tem, como tem sido de praxe a nossa frase da semana. E a frase da semana é essa: “Ninguém faz algo grande sozinho”- Carlos Wizard. O dono… para quem não sabe procura no google aí, né, que eu não vou ficar dando jabá de graça.


Essa noite a gente tem um convidado extremamente especial, né. Ele é formado em educação física, especializado em personal trainer, mestre em engenharia mecânica com foco em biomateriais e geomédica, membro de diversos laboratórios e grupos de pesquisa, atuação como docente, é professor de pós-graduação também, palestrante e autor do capítulo do livro da… do cref, se eu não me engano do cref4 sobre o câncer. Enfim. Está aí com o professor Henrique Nogueira. Seja muito bem-vindo, professor.


O tema de hoje, que a gente vai abordar, é a atuação do personal trainer com pacientes oncológicos. Boa noite, seja muito bem-vindo, a palavra é sua.


Henrique nogueira: Boa noite a todos que estão assistindo a gente, que estão reservando esse momento agora a noite para acompanhar a nossa conversa. Agradeço o convite do professor Leonardo, o professor Fausto que está aqui também presente para que a gente possa dialogar bastante. Então eu espero poder contribuir com a... Com uma discussão de alto nível, para que toda nossa área consiga fazer uma reflexão. Sobre os caminhos que a gente pode trilhar, não só em termos de carreira, mas também nas vidas das pessoas que dependem da gente. Então é bem bonito a gente ter esse tipo de relação também, né?


Leonardo Farah: Ah, com certeza. Nós somos de uma profissão que está diretamente ligada como o envolvimento humano. Boa noite professor Fausto, tudo bem? Qual é a sua expectativa para a live de hoje?


Fausto Porto: Muito aprendizado. E ver com o professor o como é importante e qual mercado tem a nossa frente. Eu estou entendo que o mercado do exercício terapêutico, talvez, seja uma das melhores e maiores oportunidades aí para a educação física. E é interessante porque a um precedente que alguns postos de trabalho que foram fechados em outros segmentos da profissão, agora, com o exercício terapêutico, com base nos documentos que estão sendo publicados/ divulgados, agora, esse ano, nós passamos a ter outras oportunidades. As expectativas são altas. Vamos ver o que nós vamos aprender aqui com o professor.


Leonardo Farah: Ah, maravilha! Bom, para dar esse início, vou fazer a primeira pergunta: Professor, o que te levou a estudar o exercício físico com o câncer? Foi essa ordem mesmo ou ovo nasceu antes da galinha? Explica aí para gente.


Henrique Nogueira: Então, é uma história bastante engraçada, porque assim, se eu for pensar do ponto de vista pelo menos cronológico, que acho que dá para organizar melhor as ideias aqui, a… Sempre, desde criança, eu me lembro de conversa de famílias e de vizinhos, sempre contando: “Ah, fulano teve câncer, fulano está com câncer e tal.” E aquilo sempre mexeu comigo. Sempre me impressionou. Até porque a imagem dessa doença anos atrás, 20, 30 anos atrás era bem diferente da imagem que a gente tem hoje. Então, assim, tinha toda uma... a pessoa foi diagnosticada com câncer e isso meio que escandalizava a família porque, a pessoa então está para morrer, então fica uma situação meio complicada. As pessoas confundiam câncer com AIDS, por exemplo, também tinha esse tipo de confusão; o pessoal achava que não podia usar o banheiro do parente ali com câncer, então tinha ali uma certa limitação de informações na época e tudo mais. Então aquilo sempre me impressionou bastante.


Então, eu sempre tive assim, desde criança eu sempre tive contato com familiares que tiveram câncer e depois com vizinhos, conhecidos e tudo mais. Acontece que depois, a... até então, criança, eu não me imaginava trabalhando nem com educação física e muito menos atuando com câncer. Mas, o tempo foi passando, e eu me tornei atleta de categoria de base de basquetebol, e então ali eu comecei a ter uma prática mais assídua, e sempre gostei de praticar esporte, tanto que quando eu não vinguei no esporte, eu acabei indo para a educação física.


Então eu ingressei no curso de educação física, comecei primeiro pela licenciatura e depois, na sequência, eu fiz o bacharelado. E no bacharelado a mente me abriu mais ainda porque eu comecei a ter contato com a disciplina de grupos especiais. Tudo bem que a formação inicial para isso, não foi lá essas coisas para a área do câncer, especificamente, até porque não deu tempo do professor abordar, é aquela coisa das disciplinas cada vez mais corridas e o pessoal faz uma certa “fatiação” do que precisa colocar ou não, e aí acaba tendo aqueles pilares de, por exemplo, diabéticos, hipertensos, gestantes, idosos. Então, eu não tive muito contato com a disciplina de câncer especificamente, nem mesmo como material de estudo. Mas, eu já comecei a me ver trabalhando com grupos especiais, tá.


Me chamou atenção que a professora da época também demonstra gostar de grupo especial, de ajudar pessoas doentes e tal. Então eu pensei: “Poxa, que legal cara!” Eu pensava que eu ia ser atleta de basquetebol, depois eu pensei que eu ia ser técnico de basquetebol, por isso fui fazer educação física, depois fui fazer bacharelado e tal, mas aí aquilo me comoveu e me remeteu ao meu passado; aos contatos que eu tinha na infância e adolescência com pessoas queridas que tiveram doenças, inclusive o câncer.


Me formei no bacharelado e fui aproveitado pela própria instituição para trabalhar no laboratório de educação física, e aí nisso eu já engatei uma especialização, e os professores já viam que eu tinha um viés acadêmico também. E acharam que eu iria ser professor universitário. Então eu já fui para a especialização tanto para me especializar mais sobre personal e quem sabe melhorar meu atendimento justamente nessa área dos grupos especiais, mas, também, já para ter um título mínimo ali que era necessário para o MEC aprovar ali, de repente o ingresso meu como docente.


Nesse meio caminho eu fiz parte de um, de uma comissão técnica de um time de basquetebol em cadeira de rodas, de alto rendimento chamado CAD São Paulo, um dos atletas nossos, O Celestino, ele foi atleta dos jogos paralímpicos do Rio (imagina o Shake Ronilde em cadeira de rodas, era basicamente ele) e aquilo... Eu comecei a gostar ali também, eu fiz parte da comissão técnica, e nisso um aluno de doutorado da UNIFESP, chamado Radamez Medeiros, um cara que eu tenho um grande carinho até hoje, é um grande amigo meu, pessoal né, ele estava estudando lesão medular, sistema imunológico e exercício. Então ele pediu para a gente usar nosso… Pra usar os nossos atletas como amostra da pesquisa dele, ok. Claro que a gente aceitou; laboratório todo padrão ouro; aprender a mexer com dex, aprender a mexer com a ergoespirometria, com saidx para fazer testes lucineditos e tal. Então saía do livro e eu comecei aprender a prática ali no laboratório.


Acontece que isso me agregou muito com relação ao sistema imunológico que, muitas vezes, é pouco trabalhado na graduação e também na especialização. Então o que acontece, eu comecei a ter mais interação disso, só que assim, apesar de eu ter gostado de trabalhar, com lesão medular, tanto ajudando no doutorado desse meu amigo Radamez, quanto ajudando a equipe técnica lá, eu não me via, por exemplo, trabalhando com isso a de eterno ali, né. Então o sistema imunológico que eu aprendi me agregou muito, mas aí eu já comecei a querer me enviesar para o câncer. Nisso, eu lembro que logo que eu me formei, eu tinha uma paciente aqui no condomínio que ela foi meu primeiro caso de atendimento com paciente com câncer. Ela teve glioblastoma, cara.


Glioblastoma é um tumor no cérebro, no sistema nervoso do cérebro. E então assim, gerou muito prejuízo motor cognitivo intelectual, sensorial mesmo. Então ela perdeu a visão, perdeu audição, dificuldade de fala e tal. E o treinamento de força com ela, cara, ajudou muito a ela a melhorar, a voltar a desenvolver habilidades. Tanto que ela um dia me chamou, ela interfonou na minha casa e falou: “Henrique, estou fazendo um bolo e você vem aqui fazer um bolo comigo.” E antes de eu pegar ela, ela estava toda debilitada, ela não conseguia andar sozinha. O marido que levava ela até a academia, eu treinava ela e o marido que buscava ela, praticamente no colo, sabe assim?E ela, conseguiu, então, nesse dia, fazer um bolo e me chamar para tomar um café na casa dela.



Então ela me servido o café, ela me servindo uma fatia de bolo, assim, devagarinho, mas ela fazendo a parte motora ali sozinha. Ela falou: “Henrique, o que você fez pra mim, assim, Deus colocou você no meu caminho para me ajudar e tal.” O marido não dirigia. Ela dirigia antes do, de ter o diagnóstico. E ela tinha um fiat zero da época, e ela falou: “Oh, você quer ficar com o carro? Fica com o carro para você.” E eu falei: Não, pelo amor de Deus, não faz isso comigo não, tem nada a ver. Vamos separar as coisas aqui. Depois você vende o carro, seu marido vende o carro, e sei lá o que vocês vão fazer com o dinheiro.” Mas, enfim. Você vê o quanto que é gostoso ter essa percepção que a pessoa é muito grata a você, por você ter feito uma coisa legal para ela.


E assim, infelizmente, ela não vingou. Então, diminuiu o tumor cerebral, ela era uma candidata a fazer a cirurgia de redução do tumor, mas para isso tinha que reduzir o tumor, o exercício físico ajudou a reduzir, mas aí o médico lá, demorou muito para fazer o trâmite para ir para a cirurgia e aí acabou que ela acabou morrendo e tal. Mas, me marcou bastante. O meu segundo caso foi um familiar meu. Eu estava no laboratório da faculdade, estava no laboratório da UNIFESP, e estava terminando minha pós graduação, minha especialização, e aí ele teve um diagnóstico com o linfoma de hodgkin que é um tipo de câncer do sistema linfático, na verdade, das células imunes. Apesar de partir ali do sistema linfático, né, na maturação das células, ela vai para a circulação sanguínea mesmo, enfim. Você acha linfócito em tudo quanto é lugar. Mas, é um tipo de câncer do linfócito, ou seja, das células imunes que deveriam te defender do câncer, né.



Então ele teve esse tipo de câncer né, linfoma de hodgkin e foi tratado com quimioterapia, e eu propus para ele, para treinar comigo. E eu falei com meu orientador, professor Waldecir Paula Lima, que foi meu orientador no mestrado, que inclusive é uma lenda de educação física no Brasil e vai ser meu Co-orientador do doutorado que vou fazer no Rio de Janeiro, junto com o Dantas, o Estélio Dantas, que é na área do câncer mesmo. Eu vou fazer doutorado câncer-exercício. E eu ligue para ele e falei: “Waldecir, eu estou com um caso aqui, cara, raro (porque a incidência é baixa do linfoma de hodgkin no Brasil e ninguém está publicando sobre isso) e ele topou assinar aqui o termo de consentimento, cara. Vamos pra frente? Vamos fazer um estudo legal e publicar?”


Meu, a família primeiro ficou com o cabelo em pé, né. Minha família ficou com o cabelo em pé, tal: “Pô, como é que você vai fazer isso? Vai usar o seu familiar aí como cobaia, tal”. Aí eu falei: “Não, calma, a ciência está do meu lado”. Porque eu li muito. E eu falei: “Oh, eu vou fazer algo seguro. Não vou fazer loucura. Vou fazer um protocolo que cabe dentro de uma quimioterapia.”


E aí deu super certo. Os dados hematológicos dele, por exemplo, da contagem das células imunes ficou dentro da normalidade, o que é um grande benefício, porque a quimioterapia, justamente, nesse caso, principalmente serviria para destruir linfócitos, porque é justamente os linfócitos que estão com câncer. Então a quimioterapia ia destruir células imunes. Sério ao alvo, é o alvo da quimioterapia naquele caso. Só que a contagem ficou ok. Isso quer dizer que ela destruiu as células cancerígenas por conta da quimioterapia, mas a medula conseguiu repor células saudáveis no lugar. Então ele ficou bem pra caramba, tanto que ele não teve fadiga, melhorou a capacidade de treino, a habilidade de treinar dele melhorou muito. Então ele melhorou bastante componente, e foi o estudo de caso que a gente publicou.


E aí eu falei: “Nossa cara, eu acho que eu estou bom nisso. Acho que esse vai ser o meu caminho. Daqui para frente eu só vou atender paciente com câncer, como personal, e a minha pesquisa eu vou tentar inclinar o máximo possível para isso. Então o que aconteceu? Eu comecei a publicar artigo sobre câncer, comecei a só atender paciente com câncer, e comecei a dar aula de pós-graduação com esse assunto, palestra com esse assunto. Então, hoje, eu consigo conversar com as três esferas da atuação que é a acadêmica, como professor universitário, como pesquisador então na ciência, e também na ponta como personal.


Então hoje, assim, uma coisa foi levando a outra, mas porque eu fui sendo sensibilizado de alguma forma, e eu gostei cara. Assim, é a área que eu mais gosto é trabalhar com paciente com câncer. Então, hoje o meu doutorado vai ser em câncer, para continuar contribuindo cientificamente com a área. Mas, aos pouco, tentar ir pegando mais alunos de personal, com câncer, e tentar formar mais profissionais colegas que possam colaborar.


Então, mais ou menos, vai… Eu sei que eu me estendi um pouco aqui, mas de uma forma geral essa foi a minha trajetória do porque hoje eu atuo com câncer com muito carinho, com muito amor. Você tem que ter um grande conhecimento técnico-científico porque você tem uma responsabilidade enorme, porque você não pode errar. Você não pode dar margem para erro, uma margem para erro pode ser fatal. Então você tem que ter uma grande bagagem nisso, mas também, você tem que ser um cara humano, que está sensibilizado com aquilo, né. Sabendo que você tem uma missão para ajudar pessoas. E ajudar pessoas, cara, é assim, vou dizer assim, bens materiais são interessantes, mas não tem preço que pague você perceber que está fazendo bem para alguém, né.


Leonardo Farah: Ah, com certeza. Nossa, é muito... É visível a paixão que você tem, dentro desse viés como um propósito, de atuação. Eu acredito que você conciliou tanto a esfera, as três esferas, principalmente, você aliou à algo que você gosta, então entra na esfera pessoal também. Da realização, da satisfação pessoal, e boa parte, eu acredito, do teu sucesso, ela vem disso. Segundo, você não está enrolando ninguém. Você está… É nítido essa percepção de estar posicionado com a educação física, dentro da saúde. É algo que até então o pessoal falava, “como que vai trabalhar dentro da saúde e tudo mais”, e você mostrou o que? “Pô, estuda. Estuda e relaciona, saiba o que está fazendo porque a responsabilidade é grande. Então no seu caso como o fator oncológico… Da mesma maneira outros profissionais que atuam com pacientes cardiopatas, hipertensos, enfim. Isso é muito legal. Por isso que eu pergunto para o Fausto, que daí, o Fausto é o nosso comentarista de modelos de negócio: “Fausto, que modelo de negócio é esse que ele está falando aí? Fala aí para gente.”


Fausto Porto: Olha, realmente esse é um ponto que nós temos que destacar, né. Deixa eu só fazer aqui uma volta ao tempo, porque eu sou na sala aqui, o rapaz mais novo, pela falta dos cabelos e os cabelos brancos, né. Então, vale aqui um destaque.Tem o início da minha jornada… eu fui do laboratório de pesquisas e a minha praia acabou sendo dentro da educação física. Então assim, só para destacar a importância disso, antes de a gente entra no modelo de negócio, é diferente porque esse é um jogo diferente do que boa parte dos profissionais de educação física estão acostumados. Eu tenho no meu currículo ofício dentro da academia, né. É importante colocar como o professor colocou, que o primeiro aluno dele veio a óbito. E isso assim, você tem que ter uma segurança técno-científica muito grande para aquilo que você está fazendo.


Eu, enquanto profissional na década de 90, uma das minhas primeiras clientes foi um oncologista, que trabalhava com câncer, né. E aí sim, é importante conviver com essa… Eu pegava meu batmóvel cheio de equipamentos de ginásticas no porta-malas e tinha que estar na porta da casa dela 5:30- 6h da manhã para a gente fazer as aulas. E daí é importante a questão de quão é o estigma do câncer. Ela tentava não se vincular aos pacientes, porque daqui a pouco aquela pessoa que estava que estava reagindo bem, ela tratava muito de leucemia, então daqui a pouco ela acabava perdendo.


Então assim, antes de nós entrarmos na parte mercadológica, eu acho importante o seguinte, realmente… eu vou colocar um ponto aqui, professor, o que eu estou entendendo, eu tenho… Nós temos que faturar, né. Nós estamos em um momento de muitas mudanças. E é importante hoje também dia primeiro de outubro, que é um mês também que trata a questão da prevenção ao câncer, para dizer que o exercício terapêutico talvez seja a maior e melhor oportunidade para os profissionais de educação física. Só que é o seguinte, essa oportunidade é para quem está pronto. Se você estiver pronto técnico-cientificamente, você talvez tenha uma onda que nunca surgiu antes na educação física, e aí nas suas mais diversas rampas.


Agora, falando já da parte mercadológica, nós temos que ver o seguinte, na educação física talvez o nosso problema maior, e aí vocês me corrijam se eu estiver errado, é porque nós temos opçao de atuação diversas, muitas. E isso acaba atrapalhando o foco do profissional. É tem uma questão chamada core business. Core business é o centro das atividades. Eu vejo na educação física 5 atividades totalmente diferentes: Nós temos a educação, nós temos a recreação, nós temos a forma física- fitness, nós temos área da saúde e diversa afinidades, e nós temos a alta performance ou o esporte.


Então, são conceitos totalmente diferentes. Então, assim, há uma confusão dentro da educação física de tentar encaixar. Então assim, vamos ver uma máxima: “Esporte de alto rendimento não é saúde. E em última instância, talvez, seja até um contraponto a essa finalidade. E aí sim, vale um puxão de orelha para toda a categoria, porque hoje nós não estamos mais avançados nesse ponto...Só para você entenderem o que eu quero dizer, a fisioterapia saiu de dentro da educação física, na década de 70, por nossa omissão. Por dizer que a educação física seria só a parte funcional e a parte esportiva, nós abrimos mão, e vamos dizer, deixamos uma outra profissão surgir dentro da nossa atuação. Então, assim, primeiro momento seria isso.


Então, sim, está surgindo uma questão ímpar, que eu acho assim, quando eu falava lá na década de 90 que a educação física era a profissão do futuro, é aqui, ao vivo e a cores. Mas não é as pessoas correndo para as academias. São as pessoas depressivas, as pessoas doentes as pessoas que precisando da intervenção de um professor de educação física, como esse brilhante trabalho que o professor Henrique descreveu aí no início. Então, assim…


Gente, olha só, se nós nos mantivermos omissos, o mercado tem uma lei que é o seguinte, não existe vácuo no mercado. Se nós não avançarmos, o mercado cria conosco ou sem a nossa participação. Então é uma questão de nós nos posicionarmos. Sabe por quê? Se não, daqui a pouco, vai estar acontecendo o mercado fitness. Vão vir os engenheiros, os administradores de empresas, vão montar empresas, e vão nos contratar para trabalhar para eles como prestadores de serviços. Então é nesse sentido que eu coloco. Estou falando alguma besteira professor? O que o senhor acha da minha fala?


Henrique Nogueira: Não. Perfeito. Eu comungo muito com o que você colocou, inclusive, vamos dizer assim, qual que é a a maior demanda, qual que é a maior demanda por atividade física ou por exercício físico. Vejam só, eu vou puxar para a minha área que é o câncer, ta?! Esse ano vai ser mais do que 600 mil novos diagnósticos de câncer, esse ano de 2020. Os anos anteriores também, centenas de milhares de novos diagnósticos, Para 2022, vão passar 650 mil novos diagnósticos naquele ano, talvez chegue até perto de 700 mil. Então quer dizer, a gente está quase que em uma escala geométrica, um avanço geométrico de número de casos a cada ano, de forma exponencial crescendo, matematicamente, não é só jargão, mas é matematicamente falando, Então a gente já vai estar na casa dos milhões de diagnóstico em pouco tempo. tem demanda.


Então, quer dizer, eu até brinco quando eu dou palestra, de forma um pouco mais formal, vamos dizer assim, mostrar dados e tudo mais, logo de cara eu já abordo isso, “gente tem demanda”. Se a gente for pegar dos últimos anos e dos próximos anos, a gente está na casa dos 35 milhões de pacientes que estão aí no Brasil. Quantos profissionais de educação física têm registrados no sistema cofeci crefs? Mais ou menos aí, perto dos 500 mil. Dos 500 mil, como o professor fausto mesmo colocou, são todos que são personal? Não. Você vai ter ali, próximo desses 500 mil, o pessoal da área escolar, você vai ter o pessoal de clubes, da recreação, todas essas esferas que você colocou. E uma parcela desse montante de profissionais registrados é que atuam como profissional. Então tem uma demanda gigante só de câncer, fora as outras doenças; então doenças cardiovasculares, diabetes, obesidade, problemas respiratórios, o que você imaginar, então várias demandas, e que têm poucos profissionais competentes para aprender.Então quer dizer, demanda tem, o profissional é escasso, deveria estar até mais valorizado no mercado por conta disso e tudo mais. Claro que só isso não resulta nisso, mas volto a dizer que tem toda uma questão cultural que tem que vencer para poder engajar mesmo de fato. Mas, por exemplo, você tem uma demanda enorme que deveria estar na sala de musculação ou nos estúdio de personal, ou nas praças públicas ao ar livre com atendimento especializado do profissional de educação física, mas não é isso que acontece. E aí é a pergunta que eu te faço: “Quantos atletas de alto rendimento, a gente vai ter contado como treinador? Como profissional de educação física?” Você que está assistindo a gente, lá na sala de musculação que você atende,como instrutor de sala, como personal, como estagiário se você é aluno de graduação, quantos atletas de alto rendimento têm lá na sua sala de musculação? Quantos atletas de alto rendimento têm no Brasil?


Então você tem ali, mais da metade da população adoecida. Mas de 50% da população tem pelo menos algum tipo de problema de saúde. Enquanto que atleta de alto rendimento você vai ter 0,5% da população e olhe lá.

Leonardo Farah: E olhe lá.


Henrique Nogueira: Eu estou assim, campeonato regional.


Leonardo Farah: A matemática que eu sempre faço é assim, quantos habitantes têm nesse planeta e quantos atletas participam de uma olimpíada.


Henrique Nogueira: Exato. Essa é a proporção. Então o que acontece, porque que os nossos modelos de atuação técnica, então, vamos falar de prescrição de treino, porque que esses modelos vêm do alto rendimento e são praticamente copiados e colados ali, para uma pessoa com uma patologia, né. Quer dizer, será que cabe isso? O seu paciente com câncer está treinando para ser campeão olímpico, ou ele está querendo treinar para sobreviver e sobreviver bem. Ter uma sobrevida, só que nessa sobrevida, ter uma vida de qualidade.


Então quer dizer, qual que é o objetivo disso? Entra no que o Fausto está colocando. Esse modelo de técnico, de aplicação técnica do treino que está equivocada, muitas vezes, nessas transferências de diversas áreas de atuação, vêm modelos de negócios também quem que não entendem isso. Então é aquele gestor que vai ser engenheiro, que vai ser matemático, que vai ser estatísticos que vai só ver a questão do balanço financeiro da coisa; mas o cara, muitas vezes, ele peca… “muitas vezes”, eu estou, assim, elegantemente falando, né. Mas assim, 99,9% erra nesse tipo de modelo de negócio, de querer os treinos da moda, os treinos do momento, aquilo que está bombando para pessoal da estética, e para fisiculturistas e atletas de alto rendimento de uma forma geral, e querer jogar isso para a população em geral. Então, isso cada vez mais afasta as pessoas doentes de querer ingressar nas salas de musculação, por exemplo.


Pensa só, eu sou médico oncologista, eu sou médico que atua com paciente com câncer, eu tenho um poder aquisitivo alto, eu sou um cara que tem recurso financeiro para bancar uma academia e quem sabe, até, pagar um personal, certo? Então eu sou um médico que é praticante de musculação, por exemplo. E aí eu vejo na academia um circo dos horrores com relação a aplicação de treino para um monte de gente. Eu como médico vou indicar aquela academia para atender um paciente meu, sabendo que aquilo pode ser um risco para aquele paciente? Então começa a afastar isso.


Questão do acolhimento, então na recepção esse paciente não é corretamente acolhido. A equipe não é treinada para acolher essa pessoa, Por exemplo, eu vou citar exemplo real meu, que eu vivenciei como praticante também, já como profissional, como atuante na área do câncer, mas isso já, acerca de uns 3, 4 anos atrás. Eu sou formado a cerca de uns 10 anos aí, mas vou dizer uns 3, 4 anos atrás, em uma grande academia de rede aí de low cost, eu estava ali fazendo a minha esteira, estava caminhando na minha esteira, e na recepção chega uma paciente com bandana e tal, e eu já falei: “Oh, paciente com câncer, que daora, cara. Veio treinar, mano. Vamos vê como é que vai ser, né”. Porque eu já era da área e eu falei que legal. Legal eu presenciar uma interação que não é minha; digamos assim, eu como espectador apenas. Estou lá, demorou uns 20 minutos para a recepcionista recepcionar esse paciente.


A paciente com câncer já teve que vencer várias barreiras psicológicas dela, autoestima, um monte de coisa que envolve ali a doença, a autopercepção da imagem, como que a sociedade vê o paciente com câncer, então ela já teve que ter uma força de vontade enorme, superar barreira, emocionais internas dela, para ir para a academia lá e ficar 20 minutos esperando a recepcionista atender ela. Isso feito, fez a matrícula, tá legal, e na hora que eu estou olhando na escadinha para cima, ali, vendo os aparelhos de musculação, estava lá um colega profissional, se é que a gente pode chamar ele de profissional, juntando ali uma galerinha em torno dele, alunos e outros colegas professores, e apontando o dedo para a mulher e fazendo gestos, meio que, tipo, não muito corretos e a mulher viu.


Ela viu porque é claro, ela está assustada naquele ambiente novo para ela. Ela já teve que vencer barreiras e tudo mais para se deslocar até a academia, para procurar uma ajuda, ao invés dela ser devidamente acolhida, ela se sentiu ameaçada naquele local. Então o que acontece, ela viu tudo aquilo ali, ela subiu a escada, passou com a cabeça baixa do lado do nosso colega, que deveria ter o cref caçado por conta disso, e aí se trancou no vestiário. Ficou 40 minutos no vestiário. Eu terminei minha esteira. Deu tempo de eu terminar minha esteira e ela sair do vestiário e ir embora chorando. Quer dizer, nunca mais voltou. Aí quer dizer, você tem ainda essa cabeça pequena do pessoal do fitness, que parece que quanto mais o músculo cresce, mais o cérebro encolhe, dessa galera. E o cara não tem uma percepção humana. Se ele tivesse câncer, ele ia gostar de ser tratado dessa forma? Se a mãe dele tivesse câncer, ele ia gostar que a mãe dele fosse tratada dessa forma?

Quer dizer, aí essa paciente na verdade, gerou um trauma nela, e eu duvido muito que ela tenha seguido treinando, treinando de alguma forma. Então, abre margem, por exemplo, para colegas mais competentes, que entendem da doença, não só técnica-cientificamente, mas também a questão humana por trás disso, porque a gente lida com seres humanos, com sentimentos. Então quer dizer, o que acontece, abre margem para colegas de fora terem que brigar por mercado, para tentar convencer os médicos, e falar: “Esses caras atendem errado, mas eu atendo corretamente.”


Então, às vezes, um estúdio de personal pode ser uma boa estratégia, mas nem sempre é, porque querendo ou não, vai estar em contato com mais de uma pessoa, e a pessoa se sente mais afastada por conta dessa cultura problemática que eu descrevi aqui. Às vezes a pessoas prefere até fazer atividade ao ar livre ou na própria casa dela. Então, começa a criar uma… Isso é interessante para o personal? Até é porque você começa a criar nicho de mercado e vai atender a pessoa particularmente. Mas, é muito mais legal você ter ambiente que te promovam cargas de treino. Claro que você não vai usar as mesmas cargas de um atleta olímpico, mas você vai ter que usar alguma carga e muitas vezes a casa da pessoa, os equipamentos, de ar livre ali do parque são limitados. Então, no início de um trabalho pode ser interessante, porque qualquer carga para esse sujeito vai gerar efeito, Mas depois de um tempo que ele está treinado ele vai precisar de mais carga, porque que a academia então, não melhora a estratégia em cima disso e não acolhe melhor esses paciente e os profissionais também, gerando um casamento perfeito para os colegas personal, que atuam nesta área, terem ali uma simbiose entre personal, academia e o paciente. Que dizer, né, a gente poderia ter uma cultura muito melhor em cima disso.


Leonardo Farah: Perfeita a sua colocação e eu ainda vou mais adiante, nesse sentido. Pelo menos a 20 anos, eu escuto de profissionais e de formadores de profissionais, docentes, que DO2 não funciona, que não serve, que frequência cardíaca é um lixo, “para quê você vai ficar controlando?” Aí do outro lado começou, recentemente, “porque o profissional tem que controlar a carga interna também, e aí, começou a surgir, “não, mais carga interna… não vamos trabalhar com trimp, não vamos trabalhar com frequência cardíaca, com variabilidade da frequência cardíaca, enfim. Só que o quê que acontece… E toda formação que você foi perdida, que você condicionou eles a não utilizarem esses controles de cargas. Eu, particularmente sou adepto ao diário de treinamento, ainda mais se tratando de uma patologia. Pô, a gente está dando ali com indivíduos, vão dizer assim, pessoas normais. Atletas que não vivem da profissão de atletas, que são advogados, empresários, administradores, enfim. Ou seja, o cara tem a vida pessoal dele e das 24 horas do dia, vai ficar posicionado uma, duas horas, apenas, em contato. Então é uma dificuldade muito grande, eu acho que essa questão ela tem que está além, tem que realmente ter um vínculo de relacionamento.


Quando você fala, do profissional que fez o sinal para o outro, ele não… Você disse que ele tinha que ser caçado, esse cara tinha que ser preso. Esse cara é um… Uma pessoa que faz isso não deveria ter nem formação. O ensino superior não deveria ser para todo mundo não. Deveria ter um grupo seleto que está afim de investir nessa área. Quando você nivela e coloca para todo mundo ter acesso ao ensino superior, você abre brecha para esse tipo de pessoa. Que falta o que? Falta cultura, falta educação. E não é projetar a educação para a escola, é coisa de berço. Tem que mexer nesse alicerce social, e aí entra o que? Todo esse viés que você comentou. Ai vai falar “Po, você tem quer ser empreendedor, você tem que ser a parte de gestor, não treina educação física porque é esporte”. Po, se esse cara não mudar essa cultura e o cara vai lá e vamos ser marombado, vamos comer peito de frango, comer batata doce, vamos tomar albumina, vamos largar o ferro e depois quando vem a legislação, fala que é da área da saúde. Ah, faça-me o favor. Que enganar quem? Então assim…. Pode falar.


Henrique Nogueira: Olha só,eu vou me desculpar muito por essa interrupção até mesmo para entrar na fala do Fausto. Mas, é muito importante isso. Vejam só, eu sou muito defensor da educação física, da regulamentação da educação física, eu sou muito a favor da saúde, eu milito nessa área afinal, eu trabalho com pessoas doentes, eu quero que a educação física seja reconhecida como sendo da área das doenças também, para ajudar as pessoas doentes a melhorar a saúde. E quando eu critico a nossa área também em cima disso, o pessoal vem dizer, “Ah, mas então que loucura é essa, você defende e agora mete o pau, como assim?”


A questão é o seguinte, Primeiro pontos: Eu vou começar lá atrás com algumas publicações de dois artigos científicos que eu uso, também, nos começos das minhas aulas, São dois artigos que mostram… (eu estou escutando um ruído, eu não seis e é do meu microfone ou da onde que é. Parece que é um vento, alguma coisa. É só comigo ou é com vocês também? Agora parou. Beleza). Então assim, tem dois artigos que foram publicados em anos anteriores, 2015, por aí, enfim. Não vou lembrar agora a data, mas são dois artigos que foram publicados, de colegas meus, de amigos pessoais também, que mostra o nível do conhecimento o profissional de educação física para prescrever treino para gente saudável, para gente com hipertensão, com doenças coronárias e para idosos. E mais de 50% dos profissionais entrevistados, tenha pós-graduação, tinha especialização lato sensu.


Para acertar todas as questões ali, de prescrição cardiorespiratória, treinamento de força dentro dos protocolos recomendados, para gente saudável, um pouco mais de 50-60%.Cerca de 60% souberam. Para gente saudável, em que mais da metade dos profissionais entrevistados tinham pós-graduação, já eram formadas e especialistas. E aí quando começa a estratificar para as doenças, vai caindo cada vez mais. Então assim, vai para 30%, 20%, 10%. Se fosse entrar em câncer, menos ainda. Dá para contar nos dedos, talvez, de duas mãos, no Brasil inteiro, quem realmente conheça de câncer e exercício físico. Então quer dizer, a gente já tem uma qualidade tanto acadêmica e tal, para baixo nesse sentido, mas também você vê, a cultura desse pessoal. Justamente isso. Falta cultura de base, uma educação de base forte, para entender que você vai ser alguém na vida, que vai interferir na vida de outra pessoa. E que você não pode sair escolhendo profissão aleatoriamente, de forma irresponsável. E entra nessas irresponsabilidades, o cara escolhe o curso porque “Ah, vamos rolar a bola, vamos levantar peso, e boa, né.” Então tem esse ponto.



O segundo ponto que eu critico muito, o profissional lá na sala de musculação, ele sabe ler exame? Um hemograma? Um documento do confef? Esse documento do confef, outras chancelas do Ministério da Saúde, da CBO, da Classificação Brasileira de Ocupações, que também é recente do começo do ano, agora, de 2020. Então, vários documentos oficiais, governamentais, que nos dão um rigor de leis em cima da nossa atuação, na área clínica, na área hospitalar. E mostra que a gente está legalmente apto a atuar nesse ambiente e que a gente tem que saber ler, ler o documento do cref, do Confef, do Ministério da Saúde, Da CBO, ler tudo isso aí. Para de postar a manchete da notícia no facebook e no instagram, e achar que você é o rei da cocada preta, certo? Então assim, tem muita gente aí que não aguenta 5 minutos de conversa sobre sistema imunológico. E vem querer falar que é da saúde.


Aí, o quê que acontece, o cara ele… Está lá claro no documento do confef, vai ter que ler exame, meu amigo. Você vai ter que ler exame e interpretar exame para atuar nesse ambiente. Além disso, você vai estar apto a pedir exame. A gente agora pode dar canetada. A gente pode ir lá, pegar nossa receitinha e fazer o pedido de um exame. Aí quer dizer, e o paciente com câncer, será que você sabe lidar com esses dados? Quantos realmente vão saber o que é um macrofogo, um monostofo, um linfosto baixo? Quais são as fases da inflamação, da infecção, que alteram essas contagens das células imunes, ou de marcadores inflamatórios, e assim por diante. Então quer dizer, o que está acontecendo ali, nesse cenário?


É importante a regulamentação da lei que nos dar rigor nisso aí, é importante. É um passo que nos dá a legitimidade pelo menos jurídica para atuar nesse aspecto. Mas a gente tem que descer um pouco do salto, matar a bola no peito e não dá chutão. Matar a bola no peito, colocar ela no chão e falar: “Espera aí, agora que a gente tem isso, o que a gente tem que fazer para fazer isso direito, né?” Então agora a gente tem que começar a capacitar de verdade as pessoas para começar atuar nesse cenário. Tem muita várzea por aí, então a gente tem que começar a pensar duas vezes. Porque, volto a dizer, a margem de erro é muito pequena, para paciente com câncer.


Então o Leonardo colocou que ele gosta dos diários de treino e tal, Eu faço uma coisa um pouco mais planificada, com certo grau de sofisticação tecnológica, mas basicamente se resume a isso. Tem os protocolos de treino, o que o sujeito treinou em cada dia, e eu faço uso de questionário. Então eu uso sim a escala de borg, uso o urs 21 que é um sistema de questionário de sistema imunológico (questões imunológico), Piper que é uma escala para a fadiga oncológica (específica para a fadiga oncológica), uso a medição de frequência cardíaca, então eu uso os instrumentos que eu tenho na mão, e uso as diretrizes de treino para essas pessoas com câncer. Para fazer um trabalho bem feito. Então, na verdade, você está documentando o seu treino. Acontece que colegas que trabalham na fiscalização do cref, e tem muita plenária em cima disso, tem algumas audiências em cima disso, de, por exemplo, o sujeito acidentou lá na academia, processou a academia, e aí vai lá, o profissional responder um processo junto ao CREF, certo? Tem o processo administrativo. Lá eles perguntam: “Oh, você tem registrado o que você treinou dessa pessoa?” “Ah, eu não tenho”. Então, meu amigo, o que você estava fazendo lá? Então tem muita gente que perde o CREF por conta disso. E perde pouco. Deveria perder, mais, na verdade, se a gente fosse parar para pensar. Então você tem que ter tudo registrado, tudo controlando, nesse aspecto.


Leonardo Farah: É a teórica dos três pilares: omissão negligência e imperícia. É o que rege.


Henrique Nogueira: Aí a gente está na onda do Covide 19, levantando a bandeira, defendendo a bandeira da educação física. É legítima, gente? É legítima. A gente tem que defender nossa classe, a gente pode questionar algumas escalas de segurança que compara a academia de musculação, com, por exemplo, ônibus lotado. Evidente que a gente pode questionar isso, não tenha dúvidas nenhuma em relação a isso. Mas, hoje, você que está atuando na sala de musculação, ou você que é praticante e está indo para a sala de musculação, pergunta para o seu instrutor de sala, pergunta para o seu personal, a complexidade do covide 19, do sars cov 2. O que está acontecendo ali com as células imunes, o quê que o vírus vai fazer ali, Quais são os marcadores de sangue que são alterados no covide 19. Eu sei disso porque eu pesquisei sobre isso, porque o meu equipamento do mestrado serviria para controlar esse tipo de marcador das academias também. É para a população geral, mas também nesse caso do covide 19 eu tenho uma publicação nacional, nesse caso, do meu protótipo lá, e tal. Então quer dizer, o cara sabe de fato, pegar um exame e falar “esse cara aqui teve ou não teve o covide 19”, enfim, não sei. “Esse cara tem câncer. Esse cara teve não sei o que lá”? Como é que está o marcador desse cara? O que é que esse marcador que dizer? Qual que é o procedimento em cima desse marcador agora? Será que eu vou aplicar Alta carga de treino ou baixa carga de treino? Alto volume ou baixo volume? Quai são os intervalos entre as séries que eu vou adotar? Eu vou fazer vários exercícios para um grupo muscular ou para uma parte de membros do corpo, ou vou fazer alternado por segmento? O que é que eu vou fazer de protocolos em cima disso? Pergunta isso. E aí todo mundo fala “Ah, a gente é da saúde, tem que reabrir.” Tem que reabrir, mas a gente tem que reabrir com justificativa plausível e não porque a gente ama a profissão. Amar é muito bom. O amor é muito bom. Mas, vamos ser racional. Será que está todo mundo preparado?


Claro que, eu vejo hoje o pessoal seguir protocolo de biossegurança isso é bem legal, ótimo que estão fazendo isso. File. Mas, será que os treinos estão compatíveis com a realidade? Então a gente tem que questionar muita coisa. Então assim, eu não sou contra a reabertura de academias. Pelo contrário, eu gostaria muito que toda academia estivesse funcionando, como eu acho que de fato agora está começando a ter isso em algumas cidades que estão sendo autorizadas, dependendo da faixa ali da reabertura. Mas, conhecendo as academias você fala: “Meu, os caras só estão seguindo o protocolo de biossegurança e ponto. Só para ver a fiscalização e ver que está tudo ok e ir embora. Mas, os caras não sabem o que é sistema imunológico, e quer falar de doença respiratória, de vírus. Então fica complicado. Peço desculpas por essa interrupção aí da fala, do Leonardo e ter atravessado a fala do Fausto aí. Mas eu tive que… Aquilo entra em mim assim de um jeito, cara, que eu falo eu tenho que falar isso, cara.


Leonardo Farah: Não, mais fica tranquilo. Eu... O que você falou ali a gente compactua com tudo isso aí. E digo mais ainda. A questão do exercício físico, a gente vende que o exercício físico é bom para todo mundo, mas não ajustar a dosagem, o volume a intensidade adequada. E aí o exercício físico vai estar relacionado diretamente com o sistema imunológico. Ou seja, uma carga de treino errada, ela vai ferrar o cara mais ainda. E é algo que a gente fala que é bom pra caramba, e que todo mundo tem que fazer.


Agora, recentemente saiu que exercício de alta intensidade libera, melhora uma enzima que vai… Eu não lembro agora direito, eu vi por cima, o pessoal defendendo o treino de alta intensidade no combate ao covid. Eu falei: Lógico...


Henrique Nogueira: Um marcador. Um marcador. Os caras se prendem... meu você tem milhões de marcadores no seu corpo, e eles usam um marcador para justificar que você tem que treinar alta intensidade durante o covil 1. Enquanto que, por exemplo, o maior pesquisador de sistema imunológico e exercício físico do mundo, da história da humanidade, David Nieman. O David Nieman, ele tem a curva clássica em J, com relação a isso. Então, o sujeito sedentário mede o risco de o risco de infecção do trato respiratório, superior, ou seja, tem infecção de qualquer ordem. Aí, o sujeito que treina de forma mais moderada e constante, ele baixa o risco para essa infecção. E o sujeito que só treina em altas cargas de volume, esse sujeito aumenta muito o risco. E aí não é uma coisa que ele fala assim: “Ah, já sei. Vou fazer uma curva em J aqui e o pessoal vai engolir o que eu estou falando.” Não. São anos de pesquisa com marcadores. O cara usou… O cara meiu carga de treino e correlacionou com quantidade de células imunes no sangue naquele momento, com citocinas inflamatórias, com os próprios sintomas de infecção que o sujeito teve. Então assim, o cara compilou um monte de estudos originais de marcadores, de dados, e até hoje isso é reciclado…


Eu faço parte de um dos grupos aí, um deles é o ISEI, que fica na dinamarca, eles tem uma revista muito boa que é de alto fator de impacto e recentemente, acho que foi no começo desse ano que saiu uma publicação, reforçando essa curva em J, porque novos achados vêm mostrando isso. Altas cargas prejudicam o sistema imunológico. Ah, o sujeito usa um marcador para justificar, mas e as outras centenas de marcadores que são todos bagunçados com o treino de alta intensidade? Então é um marcador contra 100 marcadores? Espera aí. Espera aí meu amigo, abaixa a bola um pouco. Bleza. Esse marcador deu certo? Esse marcador deu certo, mas e os outros 100 que os outros estudos estão mostrando que é tudo alterado e vai dar problema? Então, quer dizer, é um certo fanatismo, né. O pessoal é meio que torcida organizada para tudo hoje em dia. Para qualquer opnião de qualquer coisa. É: “Eu contra ele, e mesmo que o meu negócio não seja coerente, o que importa é eu ganhar a discussão”. Então, eles usam uma falácia. Isso é uma falácia. Um tipo de falácia lógica. Então é usar um marcador e... Usar ele. Enaltecer demais ele. Então ele é um marcador, você tem outras que são bagunçados e as evidências mostram isso. Então 99 contra 1… Quer dizer, esse seu 1 aí meu amigo, não resolveu problema nenhum.


Leonardo Farah: Ah, perfeito. E aí é o que a gente estava conversando outro dia com o Fausto, que a nova vedete da educação física agora, ao invés de ser estudo sobre imunologia, epidemiologia, vai ser o quê? Biomecânica. Nada contra, mas, a biomecânica em si, a gente tem que prezar e pregar no sentido de, “pessoal, vamos se mexer”. A ideia, a essência da educação física é a motricidade humana, e a gente está, está olhando ele de um espectro apenas estético e não do prático, né. Quando o indivíduo vai para a academia ele é ridicularizado, ou até errado, vamos ridicularizar, então assim, as dores humanas, elas são muito mais profunda do que a parte estética bonita que o pessoal quer ver, não é mesmo Fausto?


Fausto Porto: Isso mesmo. Mas, assim, eu tenho algumas soluções para isso. E sabe o que vai acontecer, professor Henrique? O senhor vai ter um exército de seguidores nos próximos dois anos. Eu sigo alguns pesquisadores na área mercadológica, e hoje, nunca se estudou tanto a questão do futuro, né. Tem um pesquisador brasileiro, chamado Silvio Meira, da área de tecnologia da universidade federal do Pernambuco, então, ele tem falado o seguinte: que nessa pandemia nós tivemos uma curva de aceleração entre 5 à 10 anos, o futuro avançou. E aí com isso, o que nós teríamos aí para dizer:


Primeiro, esse ponto que o senhor colocou... Eu defendo já há um bom tempo, que estágio de educação física deveria ser em creche, hospitais e asilos. Não em academias. Nós temos que começar a entender as dores e as necessidades do ser humano. Para não haver… Porque o nosso profissional hoje, ele é criado dentro de uma bolha, né? Assim, nós falamos para nós mesmos, olha quando nós estamos falhando e falhando de forma significativa: Temos hoje, 500 mil profissionais na área de educação física, mais de 50% da população brasileira sedentária, e as patologias avançando a olhos vis. Então assim, 500 mil profissionais não estão fazendo impacto nenhum na questão da saúde. Então assim, o foco está errado, a formação está errada, e a atuação deixa a desejar. Ponto 1.


E aí sim, nesse contexto, porque é que o senhor vai ter aí um exército de futuros colegas trabalhando? Porque o pessoal não está entendendo, eu falo pela parte mercadológica, não estão entendendo uma mudança grande que aconteceu pós-pandemia. O EAD, vai ganhar corpo como nunca antes. E aí sim, houve no primeiro momento na educação física, os nossos maiores cérebros e pessoas capacitadas elas estão hoje dentro do centro de pesquisas e das áreas acadêmicas; os doutores, os pós-doutores, os mestres e os especialistas. E com isso, começa agora a partir do final de 2020, para 2021, uma boa parte desses profissionais vai perder o emprego, por quê? Porque eu contrato um especialista, uma autoridade na área, coloco ele no Rio de Janeiro ou São Paulo para dar aula, e ele dá aula no Brasil todo. Então para quê eu vou precisa de uma rede hoje, para precisar de 40, 50 profissionais de nível superior? Então esse movimento vai começar acontecer. E assim, é importante esse movimento. Eu vejo a área de educação física agora em nicho. É exatamente isso, um nicho. A oncologia, a reabilitação cardíaca, vamos aproximar. O pessoal… E olha outro indicador também forte, que nós estamos errados. Só 5% da população brasileira, pagante, dentro das academias. Porque tem gente que paga e não vai, né. Quer dizer, talvez 3, 3,5% efetivamente se exercita. Então assim, nosso produto, se quer casa com as necessidades da sociedade. Então, quando essa mudança de perfil… E aí o que vai acontecer, essas mentes altamente treinadas vão ficar desempregadas, e aí surge a oportunidade do empreendedorismo, com o qual eles vão poder, eu acredito com uma curva de aprendizado mais rápida, visto aí a formação acadêmica mais sólida, então daqui a pouco o senhor pode começar a organizar aí os congressos, os cursos, porque eu acho que o senhor não vai estar tão sozinho considerando esses avanços, esses avanços tecnológicos.


E a outra questão do mercado. Como é que a gente aumenta o tamanho da pizza, como é que a gente sai de 5%? É simples. Nós podemos trabalhar em 3 esferas totalmente diferentes. Porque o pessoal está pensando que todo mundo vai para dentro das academias, e não vão. Eu vejo nessa questão do exercício terapêutico, a atuação intra-hospitalar. Para estar dentro do hospital. Mas, para estar dentro do hospital, como o senhor mesmo colocou, o cara tem que entender de exame de farmácia, de fisiopatologia. Vamos dizer que não é na boa, né?! O cara tem que ter ali, anos de estudos, para chegar e ter o respeito profissional dentro. Então, o primeiro ponto, Nós temos que ir, sim, para dentro dos hospitais, nos segundo momento podemos ter sim, alguns centros estudos e academias especializadas para isso. Mas, o que eu vejo de grande potencial no mercado, é o que já existe na área hospitalar que é o homecare. Você atender as pessoas na residência dela, que em tese, talvez seja, um dos ambientes mais seguros para aquela pessoa que tem o sistema imunológico, já meio debilitado. Então assim, pela parte mercadológica eu acredito que esses são os fortes para os próximos anos a gente possa avançar, né?


E pra fechar a fala… eu passo a palavra para o senhor.


Henrique Nogueira: Não, não. Pode concluir.


Fausto Porto: Assim, voltando a parte do dinheiro. A parte que eu gosto é a parte do dinheiro.


Henrique Porto: Ah, então espera aí, antes de você falar de dinheiro, só para eu poder fazer uma ponta em cima do que você falou nessa questão dos próximos anos. Já têm uns 4 ou 5 anos que eu venho cobrando os centros oncológicos aqui do Brasil, eu já dei palestra em um dos maiores centros oncológicos do mundo, que está aqui no Brasil, inclusive, né?! Não vou falar nomes aqui, para não ser deselegante aqui e tal. Mas, um dos jargões aqui é ser a vanguarda da oncologia, né. No Brasil, na América Latina e não sei o que, e os caras não tem uma sala de musculação nesse centro oncológicos, para pegar esse paciente para treinar com um bom profissional de educação física, bem-remunerado. Não existe isso e em uma palestra que eu dei eu cobrei isso da diretoria e deu um rebuliço depois. Mas, anos depois, agora, na virada do ano, eu fico sabendo do, Memories Slam Katlen Cancer Center, que é o maior centro de oncologia do mundo, que fica em Nova York. Os caras, já têm uma academia, um centro de treinamento físico para pacientes oncológicos dentro desse centro oncológico. É o centro de medicina integrativa deles, que tem esse espaço.

Nos Estados Unidos você não precisa ter ensino superior para atuar. Você faz um curso de final de semana que você está legalmente habilitado, só que esse sujeito recicla o conhecimento com a equipe. Então assim, um paciente chega em um centro oncológico desse, o médico faz esse diagnóstico desse o médico faz o diagnóstico: “Oh, você vai ter que tratar assim, vai ter que tratar assado, Vai ter que tratar sua vida. Mas, está vendo ali no final do corredor? Lá é a sala de musculação, você vai até lá, porque eu estou mandando aqui o seu prontuário pelo sistema, para chegar lá no personal que vai te atender.” Aí eu te pergunto: Olha só a diferença para o nosso cenário, que a gente tem que ter ensino superior para atuar (ter registro no Cref), muitas vezes fazer uma pós-graduação… A gente tem essa diferença. A UBS o NARC, enfim, todas essas estratégias do SUS. O profissional de educação física já faz parte do SUS a algum tempo, mas é diferente do dentista que também está no SUS, e ele tem a cadeira do dentista, tem os instrumentos de trabalho de dentista. E o profissional de educação física que está nessa equipe, e tem uma sala de musculação dentro UBS? E os centros oncológicos que te chamam para dar palestra, mas não têm esse profissional também. Você não consegue mandar currículo para fazer lá no trabalhe conosco deles para ingressar como profissional e também não tem o espaço adequado para isso.


Então, quer dizer, a gente está ainda muito aquém disso. E eu cobro os caras, e eles ficam bravos comigo, Viram a cara, um monte de coisa e tal. Mas recentemente, na vira do ano, esse hospital, esse centro oncológico Memories Slam Katlen Cancer Center, anunciou que quer criar uma unidade aqui no Brasil. Então, agora, a água vai bater na bunda de quem eu ficava criticando. Os caras vão vir com essa cultura de ter uma academia de musculação dentro do hospital. E aí, será que não está na hora dos nossos centros oncológicos, ou até mesmo a rede pública ter espaços de academia, com carga para o profissional atuar, e bem remunerado porque você vai exigir que esse cara seja bom? Então só fazendo essa ponta que o professor Fausto colocou, essa questão o futuro. Essa é uma oportunidade única de fato. Então vamos se unir enquanto classe, vamos gerar uma capacitação correta para atender esse público, nè?! Mas, também vamos brigar a nível gerencial mesmo, vamos falar: “O pessoal, vamos aí. Vamos com tudo. Olha o pessoal vindo aí. Olha os artigos. E vocês querem ser vanguarda como? É incoerente isso. E aí é isso que eu queria fazer a ponta antes do professor Fausto falar do dinheiro.


Fausto Porto: è porque, assim, novamente remetendo ao passado da educação física, nós temos um problema significativo, que os nossos formadores de opiniões da profissão não vêem, por eles não entenderem esse segmento que você está desbravando com tanta competência, eles falam que isso não é educação física. A educação física ou é educacional ou é esporte, hoje, talvez, os dois maiores pilares. E por essa omissão do esporte lá atrás, nós estamos décadas atrasados na questão da saúde. E olha só isso.Vamos falar de dinheiro. Eu gosto de falar de dinheiro que é uma coisa importante.


Porque se nós nos aproximarmos das outras profissões da área de saúde… Gente, olha só, se houvesse hoje a possibilidade de desconto no imposto de renda, como tem o tratamento médico, como tem o dentista, como tem o fisioterapeuta, e eu acredito que a nutrição também, isso nos daria um estímulo para as pessoas virem fazer. Seria significativo. Ponto 1.


Ponto 2: Tem um caso concreto agora, no Piauí, de um médico de uma rede, que ele montou uma rede de hospitais, depois rede de exames, depois ele montou plano de saúde, E aí ele comprou uma academia, montou e aí, olha só. Quanto é que fica uma academia Low cost, nossa hoje? 60,70, 100 reais no máximo. Quanto que fica um plano de saúde para uma pessoa de 70 anos? Entre 600 a 3mil reais. Sabe o que ele faz para a pessoa não usar o plano de saúde? Ele dá academia de graça. Enquanto muito são o um bonezinho, uma caneta e agenda, ele dá a academia. Então o que sobrou para nós da área? Sobrou os 6, 8, 10, 12 reais que ele está pagando. Então é isso mesmo? Nós vamos trabalhar para os médicos como mão de obra barata? Então assim, o plano… Haver algum tipo de estímulo, se houvesse uma estimulação em que você fazendo exercício, você sendo ativo fisicamente, você tem desconto também no plano de saúde, seria um ponto. E também, nos Estados Unidos, quem é ativo fisicamente, tem um desconto na questão da renovação do seguro. Então, se você tem um seguro, você vai pagar uma parcela menor do que aquela pessoa que é sedentária. Então assim, aproximando da área de saúde, pegando carona nas demais profissões como a odontologia, medicina, como qualquer outro segmento, Nós poderemos estar entrando nesse clube, vamos dizer, do andar de cima.


Gente, olha só, essa discussão, ela não é técnica. Ela é financeira. E como eu vou provar isso para vocês; lá atrás no passado, nós temos a medicina brigando com a odonto por causa da acupuntura, que era charlatanismo e agora virou especialidade médica. E hoje nós temos uma briga homérica dessa entre a educação física e a fisioterapia por causa do pilate. Então assim, vamos parar de brincar só com a parte técnica, e entender que nós estamos envolvidos no contexto sócio econômico. O que você acha disso professor? Estou sendo muito capitalista?


Henrique Nogueira: Não. É justo. Esse é que é o ponto. O capital, ele não é o problema, não é um demônio. Claro que o capital de forma aplicada coerente, dentro da legislação, de uma ética em cima disso, está corretíssimo. Eu não tenho absolutamente nada contra o capital. Mas a ascensão das pessoas se dá por recursos financeiros, então quer dizer que quanto mais recurso financeiro, mais acesso aos recursos diversos de serviços. E isso faz uma progressão de vida. Isso é altamente correto. Claro que a gente gostaria que todas as pessoas tivessem essas mesmas condições. E entra no equilíbrio do capital e a distribuição de tudo isso na sociedade. Ganhar dinheiro é importante. A gente vive em um sistema que é de troca de mercadoria e é impossível a gente regredir a época feudal. O dinheiro foi uma das melhores invenções que já existiu, justamente para colocar valor nas coisas e você administrar os recursos.


A questão é: de fato um profissional tem que ser muito bem qualificado, mas também tem que entender o mercado, e não só o mercado de forma individual. A gente tem que discutir que discutir o mercado de forma coletiva, entre a gente mesmo, da forma como a gente está conversando aqui, mas isso ser propagado para toda categoria, todos os 500 mil profissionais registrados. A gente tem que discutir isso, e mostrar que é tão importante, que não é só uma questão de qualidade de vida. uma questão de sobrevivência do paciente, essas coisas todas e tal, melhorar o tratamento e até utilizar o tratamento, mas até uma questão de ascensão financeira sim, porque não? Se você está ganhando dinheiro de uma forma justa e honesta, eu acho maravilhoso, é isso que você tem que fazer. O duro é o charlatanismo, o cara que cobra um preço acima do mercado, mas não aguenta 5 minutos de discussão sobre sistema imunológico e câncer. Isso quer dizer que a gente tem que entender realidades e realidades.


Apesar de eu estar na área acadêmica, e também na área da ciência, fazendo pesquisa e dando aulas e tudo mais, eu também atuo como personal. E agora, em uma mudança recente que tive na minha vida pessoal, que voltei para a casa dos meus pais aqui em São Bernardo, eu já estou tentando me colocar como personal na área do câncer aqui no grajaú, no ABC Paulista que é perto de São Paulo e tal. Então estou tentando transferir os meus conhecimentos para chegar mais na ponta, para as pessoas com câncer. Então é isso, a gente tem que entender de mercado também, como o professor Fausto colocou. Ganhar dinheiro é importante, mas para ganhar dinheiro tem que ser um ganhar dinheiro honesto. Então é todo mundo que ganha dinheiro, então quer dizer, você tem que ter muita competência tecnocientífica, mas também tem que ter habilidade de conhecer mercado sim, isso é justo.


Leandro Farah: Eu vou ser o chato aqui. Eu não gosto desse termo, “ganhar dinheiro”. Tem que conquistar o dinheiro.


Henrique Nogueira: É isso. Isso. Exato. Eu tenho que conquistar o dinheiro e o dinheiro tem que me conquistar também. Tem que ter um amor ali.


Leandro Farah: O Fausto vai chegar e falar: tem aqui uma maleta de 100 mil boletas.


Henrique Nogueira: Tem que dar met cara. A gente e o dinheiro tem que dar met.


Fausto Porto: Deixa eu colocar um ponto aqui. Vocês vão pensar que eu sou mercenário. Um dos pontos que mais o mercado fitness sobre, é porque ele foca na bilheteria e não no espetáculo. Você que ver um exemplo disso, tem um Livro muito legal que é a Estratégia do Oceano Azul, que quebra todos esses paradigmas, é o Circo de Solei. Ele inventou toda uma metodologia diferente no qual o conhecimento técnico fez tanta diferença que virou centro de referência no mundo todo. Então acho que nós estamos precisando focar mano na bilheteria e focar mais no espetáculo (resolver o problema do cliente) porque hoje, infelizmente, nós não resolvemos o problema do cliente.


Leandro Farah: Estamos gerando mais problemas para o cliente. Mais dor de cabeça ao invés de resolver o problema dele. O cliente chega saudável e a gente já vai dando o ortopedico para ele. Poxa, professor, a gente está com um pouco mais de uma 1h10 de transmissão. E vale até marcar uma próxima entrevista. Foi sensacional. E como é de praxe em nosso programa, a gente tem três pergunta no final.


Então a primeira pergunta, ela está relacionada com essa questão da pandemia. E tudo mais, Deus queira que esteja no final dela já, começou agora em São Paulo, acredito, o piloto de uma vacina e tal. E eu espero que os resultados sejam muito promissor, para gente logo escalonar isso para a sociedade e a gente logo retornar para a nossa dinâmica de vida, normal. Então a primeira pergunta ela está relacionada a isso: O que você aprendeu com essa pandemia?


Henrique Nogueira: Olha, eu aprendi que a gente tem que valorizar mais a vida. Eu acho que essa é a primeira coisa que a gente tem que ter em mente. Valorizar mais a vida. Os pequenos detalhes que a gente deixa passar despercebido podem ser importantes. A gente tem que ser um pouco mais humilde em algumas coisas, reconhecer a nossa limitação. E a gente vive no coletivo. A gente sem o próximo não é ninguém. E esse isolamento mostra isso, cara. Esse isolamento mostra demais isso. A gente recluso, é bicho morto. Mas, para que a gente consiga sair desse casulo hoje, de proteção, claro que aos poucos isso já está acontecendo, as reaberturas graduais e tudo mais, mas a gente percebe que a gente tem que tomar certos cuidados ainda. Cuidado com a gente, cuidado com o próximo, valorizar mais a vida, valorizar mais as pequenas coisa rotineiras do dia a dia. E a gente fica tão bitolado com uma coisa, que a gente deixa passar algumas outras que podem ser relevantes. Então acho que essa é a primeira coisa que eu aprendi nesse sentido mais filosófico. Mas a segunda, é que, vale a pena estudar. Vale ser bom em alguma coisa. Não que eu seja o melhor cara do mundo, ou que eu seja fantástico e tudo mais, não é isso. Não quero posar de arrogante aqui. Mas bom em câncer e exercícios talvez eu seja um pouco aqui. Então, tanto que tem um paciente que está voltando a treinar em academia. Então quer dizer, a gente tem que ter olhares mais delicados em cima disso. Acho que essa pandemia mostrou as nossas limitações e as nossas virtudes. E o quanto que a gente precisa ter, de humanidade, no resto da nossa vida aí. Acho que é a primeira coisa que eu aprendi.


Leandro Farah: Ah, show de bola. Então aproveitando a sua esteira aí, faria alguma coisa de diferente na sua carreira?


Henrique Nóbrega: Olha, faria sim. Eu acho que eu, a 10 anos atrás, se eu voltasse no passado, de volta para o futuro quando o Henrique de 34 anos falar com o Henrique de vinte e poucos anos que estava no começo da jornada, eu falaria para ele: Cara, a jornada vai ser dura, mas aguenta firme aí e não perde o foco não cara, vai valer apena. Porém, cara, estuda. Estuda desde o começo isso, cara. Não vai deixar para depois não. Tome melhores decisões, sim. Eu poderia ter tomado melhores decisões, mais assertivas lá atrás. Cara, as experiências da vida, nos traz mais maturidade, então eu acho que mudaria muita coisa sim, em termos de estudar melhor alguns assuntos, ser menos prepotente, isso é muito importante, ser menos prepotente. Achar que você sabe tudo o tempo todo, hoje, apesar de saber alguma coisa da minha área, eu estou sempre estudando, sempre me reciclando com outros colegas, não só da minha área, mas também de outras áreas, pessoas de outros olhares da profissão, é importante. A gente tem que ter humildade de aceitar isso, ser menos prepotente. Mas, quando a gente é mais novo, a gente é prepotente, é natural que isso aconteça. E tomaria algumas decisões mais assertivas na vida. Eu hoje estaria melhor, com certeza, se eu fosse falar comigo mesmo alguns anos atrás, dando uns puxões de orelha.


Leandro Farah: É normal, né. E para o pessoal que está começando agora, na atuação, com foco em personal. Sua dica de ouro. Um conselho que na sua consultoria, mentoria, o pessoal está pagando para ter. Qual seria esse?


Henrique Nóbrega: Olha, meio que resume isso que eu falei das outras duas perguntas, mas a principal delas é: Tenha amor! Tenha amor na profissão. Tenha amor para o próximo. Você não precisa ser um grande cientista, ter doutorado para atuar nessa área. Isso não é necessário. Mas você tem que ter amor, carinho, tanto com você mesmo e com a profissão, mas principalmente com o próximo que está dependendo de você naquele momento. Eu acho que isso é o motor que faz você querer estudar mais, se capacitar mais, isso te dá mais qualidade de atendimento. Então é amor. È amar mais, cara. Acho que essa é a principal dica para a galera que quer atuar nessa área. É através do amor que você melhora.


Leandro Farah: Sensacional! Show de bola. Professor a gente tem um sorteio de um livro, um livro que o pessoal aí tem, falado até que bem, né Fausto?! O livro é esse aqui, oh: “Virei Personal e Agora?” Não vou fazer tanto jabá dele, mas é que a gente tem esse sorteio hoje, desse livro, e eu vou compartilhar aqui a minha tela aproveitar que o professor Henrique está por aí, para ver se dá sorte para alguém. Será que a gente tem algum sortudo ou alguma sortuda aí.


Estão vendo a tela aí, pessoal? Eu já vinculei. Foram 120 comentários vinculados nas postagens, professor Fausto.


Fausto Porto: Opá, coisa boa.


Leandro Farah: Posso começar aí?


Fausto Porto: Pode.


Leandro Farah: Quem sabe faz ao vivo. Olhá lá. “Mardenes Mack” ganhou o livro. Vou dar um print aqui na tela. É isso aí “Mardenes Mack” ganhou o livro. Beleza professor Fausto, a gente publica isso aqui no instagram. Professor, porque a gente quer falar na semana que vem… A questão das pessoas, elas estão muito sedentárias, né? Vou até usar o termo científico, o comportamento sedentário. Ela pode ser ativa, mas ter um comportamento sedentário, né? Enfim. Então a gente vai estar com um especialista, o professor Marcos Junior. Ele é especialista em converter sedentários e clientes. Então vamos entender como que é a mágica que ele faz. Para quem não sabe, o professor Marcos Junior eles está entre os top 10, dos melhores personal trainer do Brasil.


Se bobear ele vai para o top três. E será que a gente vai dar sorte pra ele ser eleito no ano de 2020, com toda essa questão da pandemia e tudo mais, o melhor? Valeu professor Fausto, foi bom?


Fausto Porto: Sim, ótimo.Um aprendizado grande. E complementando o professor Henrique, eu fui fuzileiro naval, então lá no PQD, nós temos uma figura que é o prec. O prec é o precursor. Então eu vejo hoje que você está na elite da tropa. O que seria isso? É o prec, é o que abre a cabeça de ponte, é o que prepara a área o estande de pouco, para o resto do pessoal vir tomar ali a região. Então assim, a sua carreira, o seu compromisso, a sua paixão, abriu todo um precedente para que outros profissionais sigam o seu exemplo, e comecem a atuar também ali no câncer. E eu peço a Deus que você seja uma caneta na mão dele, e que te usem em novos capítulos na história de muitas pessoas. Para que você seja um instrumento trazendo vida para aquelas pessoas, tá? Deus te abençoe, e foi um aprendizado muito grande, ver por aqui um profissional tão apaixonado pelo que faz.


Henrique Nóbrega: Olha, eu agradeço muito as palavras e fico até sem jeito por isso, mas é bem por aí sim. Eu reconheço muito essa… a gente tem que reconhecer as batalhas que a gente trava. Então eu volto a dizer: EU não sei se eu vou ganhar muito dinheiro, esse não é o meu principal objetivo, então assim, é um objetivo também, seria legal, porque não? eu penso no dinheiro também. É justo que isso aconteça, mas, mesmo que eu não ficar milionário com essa área, mas se eu consegui ajudar o máximo possível, os colegas a entenderem importância de se engajarem nisso e de um Henrique consegui formar, mil, 10 mil profissionais que estejam engajados nesse assunto, gente, eu volto a dizer. Eu vou envelhecer olhando para trás e pensando: “Nossa, eu formei muita gente nessa área e os caras estão bem.” A gente conseguiu colocar de fato a educação física na oncologia. Seria muito gratificante para mim, acho que profissionalmente seria a minha maior realização e olha que existem várias realizações que eu penso em ter, na profissão, na vida pessoal também, mas eu acho que isso me ajudaria muito. Obrigada por essas palavras, que Deus abençoe vocês também, e que vocês possam ajudar os próximos que eu acho que é o que mais importa.


Leandro Farah: Sensacional! Poxa, cada semana é um aprendizado diferente, uma troca de ideias, uma troca de experiência, e o objetivo é esse, mostrar um outro lado da educação física e assim, sim, a gente pode fazer a diferença na vida das pessoas. Então, muito obrigado e a próxima.


Henrique Nóbrega: Contem comigo, pode marcar sim, que eu estou dentro.


Leandro Farah: Pode deixar. Obrigado para quem assistiu a gravação aí, até a próxima. Abraço!



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